Os 8 tacos que mudaram o jogo

Do putter Schenectady ao driver Callaway Big Bertha – a evolução do equipamento de golfe em direcção à modernidade passa por oito saltos fundamentais. Os tacos que deles resultaram são verdadeiros objectos de colecção. Mas nem por isso é impossível encontrar ainda quem jogue diariamente com alguns deles./JOEL NETO

 

Putter SCHENECTADY, 1904

Foi fundamental do ponto de vista do design – e foi fundamental, aliás, pelo contributo que trouxe à evolução das regras do golfe. Em 1904, Walter Travis tornou-se no primeiro jogador norte-americano a vencer o British Amateur, durante décadas um dos torneios do Grand Slam. No saco trazia um putter de alumínio cuja vareta não encaixava numa das extremidades da cabeça, mas no centro dela. O R&A não gostou da ideia, sobretudo a partir do momento em que Travis decidiu fazer alguns comentários menos graciosos a propósito sobre a sua vitória – e, quatro anos depois, emanou uma decisão ilegalizando os putters de vareta centrada. A USGA discordou e manteve-o legal. A discordância manteve-se durante quase quatro décadas, com regras diferentes em ambos os lados do Atlântico. Só em 1952 o R&A deu o braço a torcer. Por essa altura, o Schenectady Putter já havia vendido milhares de exemplares, tanto na versão original como no mercado da contrafacção, que o produziu em alumínio, ferro e até madeira.

 

Sand Wedge SARAZEN, 1934

Os manufactores de golfe andavam há décadas à procura de um taco capaz de funcionar decentemente a partir da areia. Alguns experimentaram introduzir cabeças côncavas, tipo colher, e outros testaram grooves extremamente largos e profundos, na intenção de permitir a aplicação de maior spin à bola. Quase todas as ideias, mais ou menos mirabolantes, foram sendo ilegalizadas. Até que, em 1934, um ano antes de ganhar o The Masters Tournament, Gene Sarazen se inspirou na forma como as proas dos navios perfuravam as águas do mar e decidiu soldar um pedaço suplementar de metal à lâmina de um niblick (o equivalente, mais ou menos, ao actual ferro 9), criando um taco mais pesado, de resto com aquilo a que hora chamamos bounce. O taco mudou para sempre a técnica de jogo no bunker. Quase oitenta anos depois, aliás, a esmagadora maioria dos sand wedges continuam a respeitar essa mesma técnica inventada por Sarazen.

Putter PING ANSER, 1966

Foi a primeira grande contribuição de Karsten Solheim (o mesmo que dá nome à Solheim Cup, e que aliás fundou a Ping), entretanto reconhecido durante décadas como o maior contribuinte para a evolução da tecnologia no golfe. Era para chamar-se “Awnser” (“resposta”), mas ficou Anser porque era difícil inscrever a palavra toda na cabeça, pelo menos numa fonte que se visse decentemente. O seu primeiro desenho foi feito nas costas da capa de um disco de 78 rotações – e com ele venceu Julius Boros (ainda hoje o mais velho major winner de sempre) o Phoenix Open de 1967. As ideias: a introdução uma sola entalhada, de um “pescoço” curvo e, sobretudo, de dois pesos de bronze maganês na cabeça do taco, um no calcanhar e outro na ponta, de forma a corrigir as pancadas batidas fora do “coração” da face (as chamadas “miss-hits”).  Ao longo dos anos seguintes, os putters Ping vieram a conquistar mais de 500 torneios nos principais circuitos. E a tecnologia da compensação através da introdução de pesos nem sequer ficou circunscrita aos putters, acabando por alargar-se a todos os tacos do saco.

 

Driver TAYLORMADE PITTSBURGH PERSIMMON, 1979

Os drivers com cabeça em metal já eram fabricados há anos, mas nunca tinham atingido qualquer sucesso comercial (ou sequer competitivo). Até que, em 1985, Gary Adams apresentou o novo driver TaylorMade Pittsburgh Persimmon. Ron Streck e Jim Simmons foram os primeiros a levá-lo para o Tour  – e foi precisamente com um deles que Streck veio a vencer o Crosby Clambake de 1982. Desde então, nunca mais o fabrico de drivers e madeiras de fairway voltou ao vegetal como material preferencial (embora algumas marcas ainda a tenham usado durante algum tempo). De resto, o recurso ao metal veio ainda introduzir uma mudança de paradigma na produção de drivers, que finalmente se massificou. Embora inicialmente feitos à mão e para jogadores em concreto, os ferros já eram produzidos em série há várias décadas. Os drivers mantinham-se relíquias – e, quando alguém encontrava um, o mais normal era mantê-lo no saco durante longos anos (Sam Snead ou Jack Nicklaus, aliás, usaram o mesmo driver durante décadas). E só o recurso ao metal, aliás, permitiu o recurso à grafite para o fabrico de varetas. Até Tiger Woods usa, hoje em dia, varetas de grafite nas suas madeiras…

 

Ferros PING EYE 2, 1982

Alguns dos primeiros modelos de ferros da Ping, como os Karsten I-IV e os Ping Eye, já haviam anunciado a novidade, mas foi com os Ping Eye 2 que a evolução verdadeiramente atingiu o seu expoente máximo. Lançados em 1982, os tacos traziam duas ideias que desde então nunca mais abandonaram a indústria, sobretudo nos segmentos da produção em massa (mas não só): a existência de uma cavidade oca na face posterior do taco e ainda o lie  – ou seja, o ângulo formado entre a vareta e o eixo central da cabeça, passível de adaptação à altura do jogador. Pouco depois, aliás, a Ping ainda actualizou os modelos com a introdução dos grooves em “U” (curvas no fundo, em vez de rectilíneas). A novidade levou à ilegalização dos tacos pela USGA e a um processo judicial interposto pela Ping, que exigia uma indemnização de cem milhões de dólares – e o acordo entre as duas partes mudou por completo a atitude da USGA em relação à tecnologia. Entretanto, muitas evoluções foram ilegalizadas (as novas regras para os grooves, aliás, exigem o formato “V”, em vez de “U”), mas a verdade é que, desde então, a indústria manufactureira tem um poder que nunca antes tivera.

 

Putter DAVE PELZ 3-BALL, 1984

Tal como Karsten Solheim, Dave Pelz, um dos mais importantes treinadores de golfe do mundo, é engenheiro de formação – e a ele se deve a inovação que colocou em jogo o alinhamento do putting com recurso a elementos físicos introduzidos na própria cabeça do taco. A ideia parecerá hoje tonta a um neófito, apesar de terem passado pouco mais de 25 anos sobre a ideia, mas a verdade é que ela mudou tudo na linha de putting O Dave Pelz 3-Ball incluía três bolas de plástico encaixadas no face posterior do putter, todas elas alinhadas entre si – e, aliás, destinadas a serem alinhadas também com a bola de jogo. Os primeiros modelos foram ilegalizados, primeiro porque a face posterior do taco era mais profunda do que a anterior e depois porque a forma global do taco foi considerada “não plana” (o que quer que isso quisesse dizer). O facto, porém, é que as boas ideias não morrem – e, em 2002, a Odyssey apresentou o seu primeiro putter 2-ball (desta vez com bolas desenhadas, em vez de fisicamente encaixadas no taco, o que na verdade produziu o mesmo efeito), após comprar a patente a Dave Pelz. O projecto rendeu milhões à marca, que dominou o mercado até à explosão da moda Scotty Cameron, chegando mesmo a apresentar um 3-Ball ainda mais parecido com o protótipo de Pelz – e, sobretudo, acabou por persuadir todas as restantes marcas a introduzirem algum elemento de alinhamento em virtualmente todos os seus modelos.

 

Long putter MATZIE SLIM JIM, 1985

É verdade: nenhum long putter venceu ainda qualquer torneio do Grand Slam. Mas Ángel Cabrera já venceu o The Masters Tournament com um belly putter (2009) – e, aliás, ainda este ano Bernhard Langer triunfou em dois major chamspionships seguidos (British Open e US Open), no estação de seniores, com um long putter puro e duro, imitando aquilo que já em Maio Tim Clark fizera no The Players Championship, de resto há muito alcunhado de “quinto major” no escalão absoluto”. Tudo nasceu, na verdade, com o putter Slim Jim, com 46 polegadas de comprimento de vareta, criado pela empresa Matzie Golf em 1985. A cabeça era especialmente pesada – e houve um longo debate até que, enfim, o R&A e a USGA chegassem a acordo quanto à sua legalização. A Matzie Golf nem sequer chegou a lucrar muito com o projecto, pois acabou vendida em 2003 – e Ken Matzie, o seu criador, morreu em 2005 sem ver muitas das conquistas posteriores dos tacos inspirados no seu protótipo. Mas o facto é que a inovação foi importantíssima. E que, aliás, as vantagens são tantas que já se volta a falar num projecto da USGA para ilegalizar em definitivo tanto os long putters como os belly putters.

 

Driver CALLAWAY BIG BERTHA, 1991

Foi a maior invenção da Callaway, que assim se colocou a par da Ping e da TaylorMade no topo do ranking das empresas manufactureiras mais inventivas. Em 1991, a empresa norte-americana lançou no mercado aquilo que então parecia um monstro: um driver com uma cabeça de 190 cm3. Desde então, os drivers cresceram tanto que os comités de regras se viram obrigados a estipular em 460 cm3 o limite máximo para a dimensão da cabeça de um taco. Mas tudo começou ali – e o passo seguinte, aliás, voltou a dever-se à Callaway, que aliás também foi quem introduziu na equação o uso de titanium nos compósitos metálicos. Tanto a tendência para a redistribuição do peso como para o ajustamento dos ângulos (draw, fade e neutral, incluindo várias gradações dos dois primeiros) vão igualmente beber ali a sua origem. E as inovações que remontam ao Big Bertha, aliás, estão muito longe de acabar…

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